Vinte e Três

No voo, eu não consegui dormir. Olhava pro teto, pela janela, para o Luan, fazia anotações mentais dos motivos de ainda estar ali.
1- Eu não queria que o mundo acabasse por minha culpa (ainda que fosse praticamente impossível que somente eu e Luan pudéssemos iniciar o apocalipse,  eu duvidava de pouca coisa diante do que estava vivendo).
2-A curiosidade de saber se a morte da minha mãe tinha a ver com aquilo tudo só fazia crescer.
3- Ter definitivamente o Lucas do meu lado.  Isso foi diminuindo ao passar do tempo em que eu começava a pensar.  E se ele ainda tivesse me enganando? E se eu tivesse sido burra em perdoá-lo tão fácil? Quanto mais eu pensava, mais confusa ficava. 
4- Tirar o Luan daquela bagunça. Mas primeiro eu precisava entender o porquê de minha avó ter colocado ele no meio. Talvez fosse algum tipo de ritual mágico que teríamos de fazer. Eu já não acharia tão bizarro naquela altura.
-No que você tá pensando? -perguntei de repente a ele.
-Em quando você colou meu cabelo. Eu não tinha ideia do quanto eu gostava dele até aquele dia.
-Tínhamos seis anos -eu ri- E você não deixou barato.
-Tinta marrom, a solução de todos os problemas do mundo. -ele sorriu.
-É... -eu disse olhando pela janela a imensidão branca abaixo de nós- Eu queria que tinta marrom nos ajudasse agora.
Senti meus olhos se enchendo de lágrimas.
-A gente se meteu em uma boa...
-Só que ao contrário, Santana.
-Me chama de Luan. O Santana me faz lembrar de quando você queria me matar.
-Como se você não quisesse também.
-Não. Na verdade eu nunca quis.
Olhei sua mão estendida no banco e a segurei. Desisti de tentar manter distância e o abracei. Na hora errada.  O avião começou a passar por turbulência e eu acabei quase caindo por cima de Luan.
Ficamos lá rindo enquanto os outros passageiros chegavam a se tremer.
Vi olhares desesperados naquelas pessoas, mesmo que elas soubessem que estavam seguras.
Me peguei pensando em como uma pessoa se sentiria ao se deparar com alguém como o Lucas e soubessem que iria morrer.  Se alguém soubesse quem o Luan era... dariam um jeito de matá-lo ali mesmo.
A ideia me fez estremecer. Eu não queria perdê-lo. Eu estranhamente não queria perdê-lo.
-Tô com fome.
-Mas você acabou de... -ele me lançou um olhar de "não termine essa frase", e eu soube que o melhor que eu fazia era ficar quieta.

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